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Livro de Reservas

Bem vindos! Sou apenas uma Turista cheia de bagagem, em viagem pela Vida, registando Reservas aqui e ali num Hotel chamado mundo.

Livro de Reservas

03.Dez.18

O que aprendi a trabalhar 60 horas por semana

Mi

Estes últimos três meses têm sido intensos: encaixotar pertences, mudar de casa, preparar aulas, dias de trabalho com 14 horas, responsabilidades sociais e familiares, lidar com o facto do meu avô estar em fase terminal.... enfim... ser grande resume-se a uma grande montanha russa de situações...

Este período foi de grande aprendizagem, sem dúvida. Julgo que foi o maior tira-teimas pessoal que já enfrentei; agora que estou em fase de rescisão de um dos empregos, venho refletir sobre as maiores lições que retirei de toda esta conjuntura:

1 - "Trabalhe melhor em vez de trabalhar muito": confirmo esta suspeita que já trazia dos meus tempos de hotelaria,: é, sem dúvida, muito mais sensato. Hoje em dia, a tendência é querer trabalhar muito, muito, sentir-se produtivo porque fazemos horas extra, estar disponível para trabalhar quase 24h sobre 24h, sem tempo para o que é realmente importante. Nesta situação, falo contra mim: sentir que tenho a capacidade de ganhar dinheiro, trabalhando muitas horas por dia, faz-me sentir útil, produtiva e a contribuir para a estabilidade financeira da família. Mas, a que preço? Em troca, comecei a reduzir as horas de sono, a não estar em casa, não ter fins de semana. O desgaste físico e psicológico apresenta-se a médio prazo: falta-me a concentração, a serenidade, a paciência. Sinto-me completamente desgastada, saturada e com vontade de dormir até ao Natal do próximo ano. Por querer tomar conta de tanta coisa, a sensação é de "overwhelmed" em que estou constantemente a cobrar-me por pormenores que deixo escapar, fazendo bullying comigo própria. Neste aspeto, sinto que bati completamente no fundo: não importa quão organizada e pleneada está a semana, quando a cabeça "morre", o corpo assume apenas os serviços mínimos. Nunca me senti assim e não tivesse eu um forte apoio e sustento emocional do meu namorado, já teria feito tilt há muito tempo. Sem "tempo" para vida social, as pessoas afastam-se, naturalmente, pois a minha prioridade tem sido a minha família e o meu namorado. Isso faz-me sentir "sozinha". O meu tempo de lazer social tem sido em períodos de trabalho, em que desabafo com colegas próximas, nos locais de trabalho, trocamos momentos divertidos, com parvoíces e histórias. São as pessoas que me perguntam como estou, como está o meu avô, como está a vida, a mudança, a casa nova... sei lá. São os "amigos" que me adotaram na fase mais trabalhosa e dura que me lembro, dos últimos tempos.

 

2 - Ninguém quer saber quantas horas já trabalhámos. E bem. As consequências das escolhas pertencem a cada um. Quando atento que ninguém quer saber quantas horas já trabalhei, refiro-me ao facto de me continuarem a dar os piores horários, de fingirem preocupação ou ajuda. As pessoas são interesseiras. Não peço compaixão nem pena, apenas colaboração e espírito de equipa, tal como eu tenho quando me vêm chapar com as desculpas que têm filhos. Tal como eu escolhi trabalhar 16 horas, as pessoas também escolheram ter filhos. E atenção, não tenho nada contra famílias com filhos, mas reforço que tudo são escolhas. Eu não tenho que me sujeitar aos piores horários só porque outra colega tem filhos. Desenrasquem-se tal como os meus pais se desenrascaram. Doenças imprevistas? Ok, tolero. Imprevistos urgentes? Tolero. Situações inusitadas? Tolero! Andarem-se sempre a desculpar com falta de tempo para os filhos e por isso só podem fazer turnos específicos: não tolero. Uma coisa são filhos pequenos que ainda têm horários e rotinas para cumprir, outra coisa é o comodismo. O trabalho não possibilita uma vida familiar mais feliz? Mudem-se. Porque tenho de ser eu a abdicar de noites, fins de semana e feriados só porque "não tenho filhos"? Parece-me apenas injusto. Não tenho filhos, mas tenho uma casa (pronta a estrear), tenho namorado e tenho família e todos precisam de mim, na mesma medida.

 

3 - Os momentos mais simples são os que ganham mais sinificado. O facto de hipotecar o meu tempo ao trabalho fez-me apreciar, com uma grandeza ainda maior, o significado das pequenas coisas: o meu namorado ir ter comigo para termos uma refeição juntos em muitos dias; termos um bocadinho livre para darmos um pequeno passeio ou jantarmos, sem pressas; apreciar a ajuda dos meus Pais, a sua presença e apoio; dormir, sem precisar de acordar com despertador; comer sem olhar para o relógio.

 

4 - Os tempos mais difíceis são os que nos tornam realmente mais fortes e conscientes. Depois de ter passado por esta fase mais atribulada, conheci e venci limites próprios. Descobri que é possivel fraquejar, chorar e procurar ser mais feliz. Infelizmente, cada vez lido pior com os meus erros, com as minhas falhas e com o facto de precisar não ser forte...este período conturbado veio agravar esta minha condição. A minha vida e eu própria transformaram-se, em função do trabalho. A partir de agora sei que sou capaz de enfrentar desafios semelhantes, mas mais consciente de que não será algo ao qual me voltarei a comprometer. 

 

De todas estas (longas) semanas de planeamento e trabalho lamento tudo o que não fiz por mim: mais paciência, compaixão e compreensão por mim - pela situação, por estar a fazer o melhor que posso, em todos os minutos. Lamento, profundamente, a pessoa horrível que sou para mim, por me cobrar a todos os instantes, cada pormenor que me possa escapar. Ser tão dura comigo própria abala as pessoas e as relações que tenho à minha volta. Tenho muita pena por desperdiçar tanto tempo ao que não é realmente importante, por não aprender a perdoar-me. Nada na vida acontece por acaso e acredito que seja agora a altura de um novo recomeço, em meio de tantas mudanças. Está na hora de cuidar de mim, de cuidar a sério, para poder estar bem perante os outros. Essa é, sem dúvida, a maior lição desta temporada.