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Livro de Reservas

Bem vindos! Sou apenas uma Turista cheia de bagagem, em viagem pela Vida, registando Reservas aqui e ali num Hotel chamado mundo.

Livro de Reservas

21.Mai.15

O meu Pai é Polícia.

Mi

Costumo dispensar assuntos mediáticos em qualquer dos meus blog para evitar aquelas discussões ridículas em que acabam todos aos insultos, sem ninguém aprender nada e pior, sem ninguém chegar a uma conclusão.

O que venho escrever hoje está na gaveta há meses, anos, talvez... É um assunto guardado junto com a revolta e indignação que tenho em relação ao nosso País. Não venho defender ninguém, acusar ninguém... venho manifestar a minha realidade num blog que ainda é meu, por sinal. E numa altura em que está na moda falar mal, eu venho falar bem.

 

Desde que me lembro que o meu Pai é Polícia. Quando eu nasci já ele tinha escolhido esta vida (a mesma que ainda hoje tem, porque agora a reforma é, até ver, aos 65 anos). Lembro-me de ser pequenina e de existirem muitos dias em que eu não podia fazer barulho de manhã porque o meu Pai tinha chegado às 7H00 depois de um turno da noite. Desta forma, aprendi a respeitar os outros. A entender que a minha liberdade não pode incomodar os que me rodeiam. Então eu ia para o sofá ver a Rua Sésamo à espera que ele acordasse. Quando eu era pequena não entendia que riscos é que esta profissão sempre acarretou, só via a parte boa: tinha dias em que o meu Pai estava livre e me podia levar a passear nos eléctricos de Lisboa, caminhávamos pelo Rossio com a minha mão pequenina a segurar a mão dele. E comprava-me sempre um chocolate, o Lion.

Cresci a ver o meu Pai ser Polícia, com ele a contar histórias de perseguições saídas de filmes, a omitir delicadamente sempre que era ameaçado e injuriado, a mostrar-me que todos os dias fazia (e faz) o melhor para proteger a sociedade onde ele pertence, tão ingrata, por vezes.

Os anos foram passando e, na escola, convivia com colegas (miúdos!) que ofendiam gratuitamente a Polícia porque era o que ouviam em casa. Não ofendo uma Classe de Trabalhadores só porque sim. Aprendi a respeitar a autoridade, as pessoas superiores a mim porque esses foram os valores que me incutiram. Sempre olhei para a Polícia como um conjunto de pessoas (sim são de carne e osso!) que estão a trabalhar para mim 24h sobre 24h, não como uma Instituição em que cada um chega ali faz o seu horário e põe-se a andar, sem se importar com quem lhes pede ajuda. Não é assim que funciona... Costumo pensar que a Polícia é uma espécie de Jesus Cristo da era moderna: todos lhe batem e ofendem, mas na hora da aflição é à Polícia que recorrem.

Cresci a ver o meu Pai sair à 1h00 da manhã para trabalhar sem muitas vezes saber se ia regressar, a ver o meu Pai cumprir o seu turno e mais de 12h depois ainda estar na esquadra para resolver uma detenção de um qualquer bêbado... e não, ele nunca recebeu pelas horas extraordinárias. Cresci a deparar-me com um Governo que retira a autoridade à Polícia sem que os Agentes possam fazer uso das suas armas mesmo em legítima defesa. O mesmo Governo que obriga os Agentes a comprarem a sua própria farda, a pagar eventuais estragos nas viaturas. E, espantem-se, é também este Governo que manda os Agentes para a rua na "caça à multa" (e não, também não ficam com o dinheiro das multas. Se assim fosse, a esta altura já a minha Família era milionária e nunca o meu Pai teria feito favores para tirar multas).

Vivi muitos Natais sem a presença do meu Pai para que ele pudesse garantir a segurança de todas as famílias. Cresci a ver o meu Pai chegar furioso a casa por causa do serviço, da ingratidão das pessoas, das leis que o "protegem". Cresci a ver o meu Pai ser odiado por ser Polícia sem nunca perceber porque é que são vistos como inimigos.

O orgulho que tenho nele é grande. Muito grande. E por muito que eu escreva, por muito que eu defenda a Polícia as pessoas irão sempre insurgir-se contra mim; excepto aquelas que sabem do que falo.

Neste momento o meu Pai trabalha próximo de pessoas vítimas de violência, faz companhia a idosos que são abandonados nas suas casas, faz de Pai, de Filho de muitas outras pessoas. Faz de Amigo. E a Polícia é isto, presta um serviço público, está atenta às situações que nós fingimos que não acontecem ou que fingimos não ver. Tenho muito orgulho do meu Pai que sacrificou a sua vida para que eu tivesse uma melhor. Que me dissuadiu de lhe seguir as pisadas. E tenho muito orgulho da Polícia que temos. Do companheirismo e união que sempre demonstram.

Gostava muito, mas gostava mesmo muito que quando olhassem para um Agente vissem uma pessoa comum. Poderia ser vosso familiar, alguém que vos é querido. Há muita, mas mesmo muita coisa por trás em qualquer reacção de um Agente e quem não conhece a realidade acha sempre mais fácil julgar e criticar, sem nunca se pôr no lugar dos outros.

Acho que seria inteligente acabarem com a Polícia, como tantos têm afirmado por aí. Eu estava descansada. Terei sempre um que me vai proteger sempre.