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Livro de Reservas

Bem vindos ao Blog de uma Técnica Superior de Turismo. Dificuldades, Histórias, Curiosidades, Horas de Desespero e de Realização.

Livro de Reservas

15.Jul.18

Confissões #8

Mi

O sol estava quente enquanto fazíamos a viagem de regresso de Coimbra, com o meu avô. O meu Pai conduzia, já visivelmente cansado; os tratamentos estavam sensivelmente a meio. Comecei a pensar que à medida que os nossos Pais envelhecem, tornam-se filhos dos próprios filhos. Tem alturas em que a vida é triste.

Abri a janela e senti o vento a refrescar-me... deixei a mão a esvoaçar e os pensamentos a saltitar. O sol batia agora na água e fechei os olhos para absorver aquele momento de tanta luz. Apeteceu-me chorar ao pensar no que a vida traz e leva. Os sacrifícios, as experiências inesquecíveis, as pessoas. Especialmente as pessoas. Vão e vêem. A maior fragilidade do ser humano é o apego. É, claramente, o meu maior ponto fraco. Apego-me. A meditação ajudou-me a desapegar bastante do que é provisório, do consumismo básico. Ensinou-me a amar-me, mesmo que nem sempre o faça, a perceber a importância das pessoas e qual o seu papel. Mas não me ensinou como é deixar ir pessoas que se tornaram tão importantes para mim.

Enquanto mantinha os olhos fechados, a sentir o vento nas minhas mãos, pensei no que a minha irmã me disse, muito recentemente: terminar uma relação de amizade é tão mau quanto acabar um relacionamento amoroso.

Mastiguei estas palavras que pairavam na minha cabeça e só podia concordar, mas não aceitar. Porque o mais difícil é perceber que alguém se está a ir embora dos nossos dias sem que haja muito mais a fazer, senão perceber que tudo tem um tempo. Só me posso sentir triste.

Há muitas coisas que aprendi, muito que partilhei e confidenciei, mas sinto que não tenho importância agora. Foram tantas e tantas coisas boas, tanta cumplicidade. Serei só mais uma estranha agora? Será que sou eu que tenho um prazo de validade nas vida das pessoas?

Não estou sozinha, mas o ser humano tem dificuldade em adaptar-se à ausência de alguém. Contar novidades já não sabe ao mesmo,  o entusiamos percebido é diferente, a paciência e reciprocidade também. Como é que se lida com isto? Não é triste sentirmos que estamos a mais na vida de alguém? Que chegámos demasiado tarde ao seu círculo de amizade? É igualmente triste perceber que se eu tivesse perdido o meu namorado no meio de tanto apego, estaria, agora, completamente sozinha...

Sempre fui e serei uma pessoa reservada, de muito, mas mesmo muito poucas amizades. Não confio em toda a gente para me revelar, portanto é um desconsolo ver partir alguém em quem confio.

Posso-me sentir grata pela Família e por quem posso continuar a chatear: a S. que se mantém por perto, tirando-me de casa nos dias mais tristes, a minha J. que mesmo longe está perto, me aconchega na sua amizade e me fez muito feliz com a chegada do meu sobrinho e a minha Irmã, de quem eu morro de saudades.

 

A viagem continuou, assim como a vida continua.

O mais curioso? Muito pouco antes de algumas coisas acontecerem tive um sonho em que uma pessoa me disse: o teu tempo acabou. Riu-se e levou a minha amiga pela mão. Há coisas curiosas, não há?

 

 

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