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Livro de Reservas

Bem vindos! Sou apenas uma Turista cheia de bagagem, em viagem pela Vida, registando Reservas aqui e ali num Hotel chamado mundo.

Livro de Reservas

20.Abr.20

Baú.

Mi

Nesta quarentena não é novidade como todos temos concretizado assuntos pendentes na nossa lista de tarefas, com mais ou menos vontade e com a dedicação possível. Estou confinada a casa há exatamente 1 mês e 1 semana e sim, já risquei muitas das minhas tarefas que exigiam mais tempo e dedicação - limpar azulejos, lavar janelas, destralhar e organizar armários da cozinha, destralhar roupa e calçado - mas também já estive uns dias seguidos a sentir-me um vegetal, só a ver séries e a fazer festas às minhas gatas. Mas também não faz mal. Sei que também é preciso. Precisei, e muito, de recuperar a confiança em mim e nas minhas capacidades, depois de me ver sem qualquer emprego: sem festivais para organizar, com o meu último emprego a fechar definitivamente as portas, apenas com um par de horas com alunos de alemão e com poucas perspetivas... Deixo de duvidar do Mundo para passar a duvidar de mim. Não é tempo de desistir, bem sei, mas às vezes preciso de me sentir a baixar um pouco os braços, para recuperar o foco assim que possível. E recuperei. Em dias mais produtivos que outros, continuo a riscar terefas das minhas listas: dos projetos, da casa, de organização... o que vier.

No meio de tanta tarefa, consegui, finalmente, concluir uma que se tornou o meu calcanhar de Aquiles: organizar fotografias. Não pelo trabalho em si, mas pelas memórias que trazem. Posso garantir que precisei de quase 6 meses para terminar, pois ficava sempre travada numa pasta: a pasta de 2016.

2016 foi, sem dúvida, a rotura de um ciclo e do meu "eu" como o conhecia até então, foi um ano de viragem e de muita aprendizagem. Ainda carrego uma bagagem emocional desse tempo, felizmente, menos carregada. Ao passar cada foto sentia esta nostalgia venenosa a curar-se um pouco mais, permitindo-me olhar para alguns acontecimentos numa outra perspetiva: a pessoa que eu era, não sou mais: sou mais consciente e com outros valores, trouxe uma aprendizagem de mim e dos outros muito mais madura. E só posso estar feliz por isso. Aprendi, com todo este processo de "lidar com fotos", lidar, também, com os sentimentos. Mas aprendi o mais importante:  o que está lá em 2016, 2017 ou mesmo o que ficou no dia de ontem já passou! Já foi vivido e não me adianta de nada querer voltar para isso, estar constantemente a querer viver o que passou. Se desde aí a Vida entendeu que deveria perder amigos e deixar pessoas para trás, tudo bem: agora aceito isso de forma serena. Agora sei que nem sempre há alguma coisa de errado comigo ou que a responsabilidade nem sempre é minha se, em algum momento, as coisas aconteceram de forma X e não de forma Y. Eu perdoo e aceito a pessoa que eu era então. E assim como soube selecionar e organizar as melhores fotos, agora, no pensamento e no coração, só guardo as coisas que foram boas, sem angústias nem culpas, as memórias que deixam uma saudade confortável: os encontros, as longas conversas secretas, a ingenuidade, o pôr do sol na praia, e tantos outros detalhes bonitos...! A leveza e felicidade que sentia por saber que pertencia em algum lugar.

E estar em paz comigo mesma foi a melhor tarefa que eu pude concluir durante este tempo que (ainda) estou recolhida.