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Livro de Reservas

Bem vindos ao Blog de uma Técnica Superior de Turismo. Dificuldades, Histórias, Curiosidades, Horas de Desespero e de Realização.

21
Set17

Rabiscos - XXII

Mi

Sentou-se a apreciar o sol de outono, quase um ano depois, no mesmo sítio. Se ela soubesse o que precisaria de caminhar, até ter sentido este desapego, não teria tido nenhuma recaída pela sua jornada, não teria alimentado tantas vãs expectativas. Assim, o caminho teria sido mais curto, mas talvez menos produtivo. A vida é tão irónica que ao procurar casa foi instalar-se, exactamente, no mesmo bairro que ele. E ela perguntava-se porquê da vida teimar em juntá-los, com toda a mágoa que isso sempre lhe provocou.

Passou muito tempo. Brotaram muitas lágrimas até a dor desaparecer, até o sentimento morrer e ter deixado apenas indiferença. As mensagens já não lhe trazem pulos de alegria, nem um nó no coração, já não o quer ver mais. Não ambiciona cruzar-se com ele, acidentalmente, na rua. Deixou de o perseguir virtualmente e percebeu o jogador que ele era, que há muito tempo lhe bateu à porta. Ela desapareceu da vida dele, simplesmente, devagarinho e, mesmo assim, ela sentia que lhe despertava curiosidade. O silêncio dela fazia com que ele a procurasse. Ela perguntava-se porquê, mas deixou de ceder.

 

Estremeceu e acordou dos seus pensamentos assim que sentiu um abraço sorrateiro, confortável e protector. Tinha outro homem na sua vida. Sorriu, levantou-se e aconchegou-se nos braços que a resgataram, de novo, para a felicidade.

(Este texto está em Desacordo Ortográfico)

27
Abr17

Rabiscos - XXI

Mi

"Estava sentada na mesa grande a olhar para o vazio das janelas que deixam entrar tanta luz!

Fez um ano desde que se sentou, pela primeira vez, naquela cadeira estofada de azul. As paredes forradas de azulejos, o tecto imponente com o seu brasão de onde pende um candelabro pesado. Continava impressionada pelo aconchego e imponência desta sala, como da primeira vez. E, tal como da primeira vez, já todo o movimento atarefado do dia a dia lhe deixava saudades.

Um ano passou e muitas coisas mudaram. Especialmente a sua capacidade de viver. As recordações, de há um ano, pareciam agora mais vivas e deixavam um vazio que teimou em não se preencher, com o passar dos meses. Apercebeu-se que há coisas que demoram a ser ultrapassadas. Pensou porque se cruzavam os seus caminhos, tão subtilmente, num sussurro suave e esporádico que fazia esquecer a mágoa, a raiva, as lágrimas.

 

Fechou os livros, arrumou as suas coisas e despediu-se daquele lugar. Despediu-se de tudo o que aquele lugar já lhe trouxera.

Tornou a fechar a porta, a trancar os sentimentos, a esquecer. Despediu-se, novamente, de uma vida que já não lhe pertencia há muito."

 

 (Este texto está em Desacordo Ortográfico)

27
Jan17

Rabiscos - XIX

Mi

"Nunca voltas por bem. Liberdade foi ter-te deixado ir! Teimas em ser um fantasma que eu já temi; ainda assim, gostas de assombrar os meus dias, de atormentar a minha felicidade e garantir que a tua porta pode continuar entreaberta. Não está mais. Já devias saber. Podes fornicar outras no sofá da tua sala, levá-las a passear no teu carro novo: não mais terás de me incluir na tua agenda. Nunca mais terás de te preocupar com, de vez em quando, fingires-te um doce, ligares-me, só para te continuar a garantir um lugar entre as minhas pernas. A tua reserva caducou. Não sinto raiva, sinto muita vontade em fingir que nada aconteceu. Mas que peso me tiraste dos ombros quando percebi do que eras feito. És um cabrão, um covarde, um merdas. Já não me sufocas mais! Vai à merda, para sempre."

 

Era isto que ela lhe queria dizer quando lhe enviou a mensagem: "Estou farta desta merda. Pára de me procurar."

 

Fim.

 

(Este texto está em Desacordo Ortográfico)

 

 

19
Jan17

Rabiscos - XVIII

Mi

Sentou-se na secretária. Aquele par de músicas que tocavam em repeat fê-la recuar uns meses: naqueles dias em que chorava, silenciosamente, no canto da sua secretária, agarrando-se o mais que podia a todas as recordações, lutando, sozinha, para não o ver sair da sua vida. Pensava, nesse instante, o quão ingénua foi e, nesse momento, não chorava de tristeza do passado, mas de compaixão por ela própria: por todo o caminho que percorrera até aqui, por todos os ensinamentos, por toda a luta que travou contra ela própria, contra sentimentos que julgava impossíveis de ultrapassar. Respirou fundo. Continuava no bom caminho. Deixou de vacilar. Deixou de o procurar. Apagou todas as conversas que trocaram. Ignorava, completamente, a sua presença virtual. Aprendeu que não podiam sequer alimentar uma amizade, se ele não a respeitava enquanto pessoa, não valorizando a sua presença. Ela percebeu que tinha um valor maior que ele alguma vez lhe poderia reconhecer. E, agora, tinha a certeza que ela era um grande mistério para ele: tanta ausência, tanto silêncio, tanta verdade dita no meio de esporádicos confrontos. Ele sabia que nunca mais a teria de volta do jeito que sempre quis.

Fechou os olhos, desligou a música e sorriu. Sorriu profundamente, sem nenhuma dor acutilante no peito, sem incertezas nem medos. Sorriu. Por ela.

 

 (Este texto está em Desacordo Ortográfico)

27
Dez16

Rabiscos - XVI

Mi

Passava pouco mais de um mês desde que ela lhe entregara "A" Carta. Pensava como abrir assim o seu coração não a deixou vulnerável, pelo contrário: deu-lhe uma força de gigante para fechar tudo - naquele envelope fechado, ficou tudo o que lhe restava. Sentiu uma pontada de orgulho pela sua coragem. Coragem de colocar um ponto final numa história que ela só imaginou na sua cabeça. Existia, ainda, uma réstia de... mágoa? Seria? Não era mágoa... começava a ser indiferença, uma saudade confortável, limpa de sentimentos. O silêncio deste mês em relação àquela carta era cortado por "olás" dele virtuais, pontuais, enxutos de compromisso, carregados de vontade de a decifrar. Ela, no entanto, gastou todas as palavras, nada mais de importante havia para lhe dizer. Deixou de querer perceber como é que tudo o que era dela lhe fazia tanta indiferença, a ele... Ele, a pessoa que a procurou desde o primeiro instante. Ele, que a aconchegou continuamente nos seus braços, que lhe deu a experimentar o sabor da vida.

No fundo, ele nunca esteve lá, ele nunca a quis ouvir, perceber ou pertencer-lhe.

 

Quantos mais dias se passavam, mais fácil se tornava abstrair-se de tudo o que lhe pudesse recordar os momentos que viveram a dois. Os nós na garganta desapareceram, lentamente, dando lugar a uma felicidade descoberta.

Apaixonar-se assim fê-la pagar um preço demasiado caro. Deu-lhe muito trabalho recomeçar, sentir de novo, sorrir, libertar-se. E percebeu que todas as palavras sinceras que ela lhe dirigiu a ele, cheias de sentimento, não foram nem suficientes para o ouvir dizer: "desculpa".

 

 (Este texto está em Desacordo Ortográfico)

 

17
Dez16

Rabiscos - XV

Mi

Terão sido as expectativas ou as esperas que viraram a vida dela do avesso? Terá sido a covardia? Aquela carta fechou-se. Fechou-se sem respostas e, sem querer, isso incomodava-a demasiado. Estaria na hora de recomeçar? Quantos mais sinais tinha necessidade de ver? Quantas mais lágrimas precisava de enxugar? Tudo mudou na sua vida a partir do momento que se encontraram. Era uma vida nova que a deixava confortável, mas continuava a carregar bagagem dos dias em que era somente uma rapariga recatada, com demasiados sonhos, mas sem determinação para fazer ouvir a sua voz. E agora? Voltar atrás era impensável, na verdade, e a inquietação no peito causava-lhe uma angústia desmedida. Chegou ao fim desta linha. Estava na hora de fazer o luto por inteiro, de aprender a dizer sim à felicidade, de se libertar, de ir sem medo, sem pensar demasiado. Precisava de recomeçar, de acordar todos os dias e sentir que respirar fundo llhe daria, finalmente, tranquilidade. Quão difícil seria começar de novo? Era mais difícil lidar com a angústia diária de não ser fiel a ela própria, aos outros, à sua própria vida. As consequências de uma decisão radical começavam, agora, a assumir-se uma realidade muito próxima e isso assustava-a. Nada era simples.

Embrulhou-se na manta e chorou até não sentir a cabeça a pensar mais. E era assim que todas as noites, embalada pelo correr das suas lágrimas, caía num sono leve, despojado da tranquilidade de outrora.

 

(Este texto está em Desacordo Ortográfico)

 

10
Dez16

Rabiscos - XIV

Mi

Selou o envelope que encerrava a Carta que mudaria o rumo das decisões mais próximas. Escreveu-a com o coração nas mãos, com as lágrimas nos olhos, durante vários dias. Rabiscou, leu e releu até chegar à carta da sua vida. Abrir, assim, o seu coração tornava-a tão frágil e vulnerável. Mas mais do que já tinha arriscado por ele, não era possível e aquilo eram só palavras. Palavras profundas, carregadas de mágoa e de saudade, de muita saudade. O que diria ele? Tentou não pensar muito nisso enquanto caminhava em direcção à caixa de correio dele. Estava uma noite fria, iluminada pela lua brilhante. Esperou que ele saísse no seu carro... Aquele carro que continha segredos de noites, outrora felizes.

Respirou fundo. Fechou os olhos. Ganhou coragem. Fez escorregar a carta pela caixa de correio.

Seria o início de um fim ou o fim de algo que não chegou, verdadeiramente, a começar?

 

 (Este texto está em Desacordo Ortográfico)

09
Nov16

Rabiscos - XIII

Mi

Entrou no seu carro e olhou para o vazio, desligou a música sem sentido e respirou fundo. O mesmo erro. Era um erro, agora, ela sabia. Um erro que não a fazia arrepender, mas que a consumiu emocionalmente. Porquê procurar a vida no que está enterrado? A esperança num beco sem saída? A página virou. Virou no momento que ela bateu com a porta do carro dele, no momento que virou costas e não olhou para trás para lhe sorrir, como sempre fez.

Ele nunca lhe pertenceu e agora que ela se apercebia disso, sentia revolta, vergonha e sentia-se vulgar... Tão vulgar e pequenina... Tão desamparada...Tão rejeitada. Não foi feita para descompromissos, para metades, para incertezas. Foi feita para apaixonar-se loucamente e ser correspondida, para partilhar memórias e momentos, para amar incontrolavelmente. Mas o que é que ela era, afinal? Um refúgio para as noites dele de solidão? Uma consolação? Um passatempo?  Imaginá-lo com outras dava-lhe náuseas... Pensar que algum dia poderiam ter sido uma história fê-la sentir tão ingénua... E porque é que ele continuava a fazer questão em querer encontrá-la, tão esporadicamente, como uma lembrança quase apagada??

Queria, naquele momento, ali sentada, fugir e começar tudo de novo. Porque não? Partir e reinventar uma história nova na sua vida, mais coerente, mais feliz, com menos mágoas. Gostaria de arrancar, ferozmente, aquele pedaço de coração que ele lhe roubou, à revelia, e atirar-lho à cara. A raiva atacava-a, nesse instante... Dele? Dela própria? Não conseguia perceber. Sete meses... há exactamente sete meses que ele veio agitar os seus dias, e, como um furacão, deixou-a com os estilhaços em mãos. Estilhaços que, naquele momento em que ele a beijou, se cravaram, directamente, numa ferida mal fechada. Não havia mais dor, apenas a certeza que ela já não o queria. A certeza que o tempo dela o querer resgatar chegou ao fim. Acabou-se a saudade. Estava dormente... tão dormente...

Chegou a casa, refugiou-se debaixo do calor dos cobertores e chorou... até a mágoa se dissipar num sono profundo.

 

 

 

(Este texto está em Desacordo Ortográfico)

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